sábado, 28 de março de 2009

Reflexões

por Ana Maria Chagas

Estive longe do cafezinho e das letras, porque entrei no estressante processo de procura, compra e mudança para um novo apartamento.

Confesso que ando meio sem inspiração para escrever...

Por vezes a vida da gente parece girar em círculos repetitivos de acontecimentos, enquanto tentamos mudar nosso comportamento e atitudes pra tentar fazer tudo melhor desta ou de uma próxima vez.

Senti saudades do blog...De quem sou quando escrevo... Dos comentários dos amigos ...

Mas ainda me sinto bloqueada. Não por falta de idéias, mas por excesso ...

E fica difícil parar, escolher uma delas e deixar a emoção me guiar para escrever.

Faz algum tempo escrevi sobre como gostaria de ter uma porta USB no meu cérebro, onde pudesse ligar um cabo direto ao computador e fazer um download de tudo que penso.

Pena que não salvo os chats que tenho com amigos pelo MSN. Já deixei passar muito material para escrever. Bons textos em conversas bem interessantes com amigos idem.

Mas alguns deles não deixaram passar não. Tenho visto alguns dos meus pensamentos em artigos ou crônicas de amigos escritores.

É verdade! Um até ficou famoso..Mérito dele, claro. Mas um pouco de mim está lá.

Quem pode culpá-lo? Talvez, a sintonia de nossos pensamentos ao conversar fosse sempre tão perfeita, que ele acabou por assumir como dele algumas das minhas idéias.


Voltando a falar sobre escrever, durante a mudança para o novo apartamento, no meio dos livros, recortes, cartões e tudo mais que guardo com mais carinho, encontrei um antigo caderno onde comecei aos 15 anos de idade, em 1979, a deixar a caneta traduzir meus sentimentos.

Na maioria são pequenos textos, logicamente infantis, onde comecei a registrar as primeiras paixões, desilusões, etc. Mas relendo hoje, me surpreendi lembrando o que motivou a escrever cada um. Foi uma deliciosa viagem ao passado.

Escolhi um deles para postar aqui hoje, porque me surpreendeu que quase 30 anos depois eu ainda tenha em mim os sentimentos da menina que o escreveu :



Reflexões



Verde mar,
o que trouxeste?
Brancas ondas,
de onde viestes?
Ser mar, ser terra, ser ar,
seres que se formam... Viver...
Na areia sento e penso,
atrás do Ser o que há de ter?


Estou triste, sou só.
Sou mar seco, terra podre, ar impuro.
E na areia sentada ainda penso,
o que faz um barco sem rumo?


Folhas que caem,
encontraram liberdade?
Árvores secas, sentem saudades?
Temo a ilusão. Não amo.
Sou o pobre mar, a pobre terra, o pobre ar.
Mas aqui sento para pensar,
nunca posso do destino me afastar?


Gaivotas passam gritando,
estarão rindo?
O sol faz reflexos no mar,
tenta ele refletir também em mim?


Agora estou feliz, já posso sorrir.
Sou mar calmo, terra fértil, ar puro.
E levantando da areia penso ainda
para me completar, o que mais pode vir?

sábado, 10 de janeiro de 2009

Internet e Literatura

por Teócrito Abritta

Neste número o Montbläat chega gloriosamente a sua edição 300, estando caminhando pelo seu quinto ano de existência. Este percurso, como sabemos, tem sido difícil, mas, apesar das dificuldades, esta publicação independente continua existindo graças aos esforços de seu redator, Fritz Utzeri, da sua “equipe” de redação, de seus leitores e de alguns patrocinadores, mais movidos por interesses culturais do que econômicos ou políticos, como a Editora Sextante, contando ainda com a solidariedade de outros sites como bafafá on line, Guia Urbano e Universo da Mulher.

Hoje com o crescimento vertiginoso da Internet existe uma preocupação muito grande com o seu controle, tornando-se não um instrumento de democratização da informação, mas um dos mais eficientes meios de domínio da opinião pública.

Esta discussão do controle da informação é antiga e logo depois da Segunda Guerra Mundial refletia-se na literatura e no cinema, com obras como o romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, lançado em 1953 e adaptado magnificamente para o cinema em 1966, sob a direção de François Truffaut. Esta época também ficou marcada pelo romance 1984 escrito por George Orwell em 1949. Nestas obras a cultura era perseguida implacavelmente, realidades imaginárias tornavam-se verdades e tudo era controlado por meios eletrônicos. Em certo sentido a nossa televisão exerce um enorme controle sobre a opinião pública, favorecendo versões de interesse dos seus patrocinadores, sejam marcas comerciais ou forças políticas que controlam a sociedade de uma maneira não democrática.

Com o avanço da Internet as coisas podem piorar, já que assistimos entre as novas gerações um acentuado declínio dos hábitos de leitura de documentos impressos – sejam livros, revistas ou jornais – ficando fortemente dependentes das informações que chegam as suas mãos, muitas vezes de uma forma passiva, pela Internet. Com o desprestígio das obras escritas e com a ausência de reflexões mais profundas, o domínio dos patrocinadores tende a ser absoluto, ditando a moda, dizendo o que comer, favorecendo preconceitos, elegendo políticos e assim por diante, já que tudo terá maior credibilidade sob o manto de alguma grande empresa telefônica que promova espetáculos com superstars do que a palavra de um pensador independente e pouco conhecido que usa como arma apenas um apelo para a reflexão.

Isto pode ser visto com o abandono criminoso da nossa cultura, dos nossos museus, centros culturais, bibliotecas, universidades e uma total ausência de políticas sérias de educação e promoção social. Mesmo na época da ditadura militar existiam programas educacionais, como o Mobral, e políticas de melhoria de museus e centros culturais. Esta situação de terra arrasada na área cultural, uma das tristes marcas do governo Lula, pode ser sintetizada na Figura 1, onde livros são transformados em meras colunas decorativas para uma mesa.



Figura 1 – Livros são transformados em colunas decorativas para uma mesa.

Mas, estamos aqui mais para festejar a sobrevivência do Montbläat do que para nos aprofundarmos nesta discussão. Neste sentido vamos falar um pouco das preocupações que a literatura, o segmento cultural mais vulnerável a um possível controle de opinião, tem desta problemática.

Para isto, convido-os a ler, ou reler, o conto “Biblioteca de Babel” de Jorge Luis Borges, escrito em 1941 (publicado em Ficções, Companhia das Letras – 2007) e o ensaio “Uma Carta para Borges”, escrito em 1996 por Susan Sontag (publicado em Questão de Ênfase, Companhia das Letras – 2005).

Borges usa a imagem de uma biblioteca como uma metáfora do universo, da humanidade e de sua criação. Após dez anos da morte de Borges, Susan Sontag fez uma grande homenagem a sua genialidade com este ensaio, em forma de uma carta pessoal, onde deixa transparecer as suas preocupações com os livros, a cultura e a liberdade de expressão. Abaixo transcrevo algumas das palavras desta escritora que conseguem falar muito mais do que os meus comentários.

... Se os livros desaparecerem, a história desaparecerá, e os seres humanos também. Tenho certeza de que você tem razão. Livros não são apenas a suma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória... Eles nos dão também o modelo da autotranscendência...
... Lamento ter de dizer a você que os livros, hoje, são tidos como uma espécie ameaçada...
... Em breve, nos dizem, invocaremos em “telas-livro” quaisquer “textos” que quisermos e poderemos alterar seu aspecto, fazer perguntas a eles, “interagir”. Quando os livros se tornarem “textos” com o que “interagiremos” segundo o critério da utilidade, a palavra escrita terá se transformado simplesmente em mais um aspecto da nossa realidade televisual regida pela publicidade. Esse é o glorioso futuro que está sendo criado e prometido para nós, como algo mais “democrático”. É claro, isso significa nada menos que a morte da interioridade – e do livro.
... Mas, esteja certo, alguns de nós não abandonaremos a Grande Biblioteca. E você continuará a ser o nosso patrono e o nosso herói.


Há quatro anos Susan Sontag partiu de nosso mundo para juntar-se a Borges na “Grande Biblioteca Celeste”, deixando-nos estas belas palavras para refletirmos.

Espero que esta reflexão contribua para que nós da comunidade do Mont encontremos uma solução para continuarmos semana após semana, construindo volumes para esta infinita biblioteca.

Do Rádio Galena a Internet

Por Teócrito Abritta

Outro dia em uma cafeteria, ao observar os verdadeiros escritórios móveis dos freqüentadores, em sua maioria jovens, com seus notebooks conectados pelo mundo afora via Wi-Fi, fiquei a refletir na vertiginosa evolução dos meios de comunicação e da escrita – que, devido a sua variedade, chamamos propriamente de multimídia – que testemunhei nos 61 anos de minha existência. Uma elegante jovem ao meu lado, digitando o seu notebook com uma velocidade invejável, lembrou-me de uma antiga foto intitulada, Dactylo tirada na beira do rio Sena, em Paris, no ano de 1947 (ver Figura 1). Sempre se escreveu, sempre nos comunicamos, o que mudou foram as facilidades e a velocidade de divulgação da informação.

Figura 1 - Dactylo, Robert Doisneau, Paris 1947

Quando me lembro do esforço gigantesco que era datilografar um texto mais longo, não sinto nenhuma saudade destes tempos.

As minhas teses de Mestrado e Doutorado foram datilografadas em casa pela minha esposa em uma tarefa considerada tão heróica, que ao ser dado o último toque na última linha da tese de Doutorado, após as inúmeras versões corrigidas, fizemos uma comemoração com foto e tudo (ver Figura 2). Lembrando que freqüentemente as correções no texto implicavam em datilografar novamente capítulos inteiros.

Figura 2 - A Datilógrafa

Mas, felizmente a inteligência e a produção intelectual está acima de qualquer tecnologia, devendo o homem não se descuidar do desenvolvimento de raciocínios lógicos e intuitivos, princípios éticos e uma visão social e política, caso contrário, será uma massa passiva, manipulada pelos meios de comunicação patrocinados por interesses meramente comerciais que pululam por aí, em particular na Internet. O importante é usar as facilidades da informatização para o nosso aperfeiçoamento e não para um empobrecimento intelectual, com a perda da capacidade da escrita e da especulação (ver Novidade – Misoneistas e Neófonos, Anna Maria Ribeiro – Montbläat 268, 14 a 20 de dezembro de 2007).

Aqui faremos um passeio pela História da multimídia, comparando, de uma maneira divertida, os novos dispositivos tecnológicos, com as atualmente consideradas geringonças que os antecederam, mostrando que no fundo as diferentes gerações humanas são muito parecidas.

Rádio Galena, iPods e celulares
Enquanto os jovens de hoje se maravilham com seus caríssimos iPods, há cinqüenta anos se encantavam com o rádio galena, aquela pedra maravilhosa que ligada a um pedaço de arame – chamado de bigode de gato – e a um fone, obtido de sucata de telefone, permitia a sintonização de ondas de rádio. Era um fato fascinante e mágico tirar música de uma pedra, que era o sulfeto de chumbo natural, que foi usado na segunda guerra mundial como receptor elementar de ondas de rádio, sendo posteriormente substituído por semicondutores de germânio ou silício.
Os celulares de hoje, maravilha das comunicações, só eram conhecidos nas histórias de quadrinhos, onde o Detetive Dick Tracy falava em um rádio de pulso. Mas, em compensação tínhamos uma rede de rádio amadores que transmitiam notícias dos lugares mais remotos do planeta, providenciando salvamentos e fazendo denúncias.

Os jovens do passado também tinham os seus sonhos de consumo, como uma calça Lee ou a mais cobiçada que era a Levis Straus. No tocante a tecnologia o supra-sumo, dos universitários de áreas científicas ou tecnológicas eram as réguas de cálculo Aristo ou Faber Castell, consideradas umas das maravilhas da época, para intricados cálculos matemáticos, sendo hoje apenas uma relíquia disputada por colecionadores (ver Figura 3). Até hoje me lembro da minha primeira calculadora eletrônica, uma HP-45, presente de um ano de casamento, comprada em 12 prestações, com exigência de fiador e tudo.
Figura 3 - A régua de cálculo, uma das maravilhas dos calculistas

Epidiascópios e Retroprojetores
Hoje, diante de um moderno sistema de apresentação multimídia, onde um computador é conectado a um projetor óptico, possibilitando o uso de textos, sons, imagens e arquivos da Internet obtidos em tempo real, bem como animações feitas por programas de computador, não imaginamos a parafernália que usávamos no passado nas “modernas” apresentações com o uso do que na época chamávamos de “recursos audiovisuais”. Fotografias e quaisquer materiais impressos eram projetados pelos epidiascópios. Tinha também os microscópios de projeção e outros equipamentos, que seriam os precursores dos projetores de slides (ver Figura 4). Mais tarde apareceram os retroprojetores para transparências. Para o uso de sons e imagens eram usados gravadores de fita e projetores de filmes.

Figura 4 - Um dos precursores dos slides

Do Mimeógrafo a Xerox
Na divulgação de materiais impressos, durante muito tempo reinou o mimeógrafo a álcool e depois a modernidade colocou em nossas mãos o estêncil para mimeógrafos elétricos, onde os textos podiam ser batidos na máquina de escrever. Porém, a maior dificuldade era fazer figuras riscando com um estilete. Não dá nem para pensar hoje em dia quando usamos uma impressora.
As máquinas de escrever evoluíram muito, e algumas permitiam trocar as fontes, trocando uma esfera com os tipos, o que facilitava os trabalhos científicos quando tínhamos de usar letras gregas, que são os símbolos matemáticos. Mais tarde apareceram as máquinas de escrever com memória, a xerox e aí não paramos mais.

Pichações e o Spray
Hoje, com a tinta em spray sendo usada não só pelos artistas do grafite, como também por aqueles que irresponsavelmente emporcalham tudo, é difícil imaginar como podíamos escrever uma frase de protesto como, por exemplo:
ABAIXO A DITADURA

Para isto eram preparados lápis gigantes de aproximadamente 25 cm de comprimento e 5 cm de diâmetro, obtidos derretendo sebo, parafina e usando como corante o chamado pó de sapato, permitindo inscrições nas cores preta, azul ou vermelha. O problema era que o cheiro do sebo era uma prova irrefutável do crime político cometido. Nas colagens de cartazes usava-se o grude, que era uma cola doméstica feita com farinha de trigo ou polvilho, que era preparada em grandes quantidades, em baldes, para ser aplicado com vassouras, o que emporcalhava todo mundo. Enquanto hoje um internauta com um simples toque do mouse envia o seu protesto para o mundo inteiro, no passado tinha que se esgueirar pelas sombras da noite, todo lambuzado de parafina, grude e sebo para fazer o seu protesto chegar a muito poucas pessoas ou amargar uma prisão.

Cientistas e Contrabandistas
Enquanto a ditadura no Brasil impunha uma Lei de Reserva de Informática, que regulava a fabricação e importação destes itens de última tecnologia, cientistas brasileiros viravam contrabandistas, adquirindo ilegalmente circuitos digitais, que eram usados para construir os primeiros microcomputadores, usando televisões como monitores, gravadores de fitas magnéticos como memórias e teclados de máquinas de escrever elétricas ou de vários telefones, para a montagem final dos teclados dos chamados microcomputadores. Estes criativos cientistas-contrabandistas com muita dificuldade e trabalho publicavam seus estudos e deixavam sua colaboração para o saber universal.

Criatividade ou Alienação
Hoje tomamos conhecimento de que somente no ano de 2007 no Brasil foram vendidos 35 milhões de telefones celulares, sendo que quase 2 milhões apenas por ocasião do Natal, e que a maioria destas compras foram feitas por pessoas dirigidas pela propaganda que trocaram seus antigos aparelhos apenas em busca de uma luz piscante a mais. Estes fatos devem levar-nos a uma séria reflexão sobre a evolução da informática e das comunicações com o agravante de que estes mesmos consumidores ao fazerem os seus cadastros nas lojas, quando fornecem o número de seus CPFs podem constatar que os comerciantes já possuem todos seus dados pessoais, em um verdadeiro controle da privacidade das pessoas, como se a loja fosse uma sucursal da Receita Federal, mostrando que as nossas Leis, desde a Constituição Federal, passando pelo Código Civil e chegando até ao Código Penal, são letras mortas, o que é também reforçado pelo próprio governo federal quando apenas declara que um cidadão tem o seu imposto de renda na malha fina da Receita Federal, sem maiores informações, negando o elementar direito de saber de que se é acusado e o direito de defesa imediato. Outro fato grave é a corrida para a compra dos caríssimos conversores para a TV digital, por uma massa que age como zumbis, comandada pela mídia globalizada, obedecendo a um comando consumista em direção a uma tecnologia incipiente e não existente efetivamente. Esses fatos foram bem sintetizados por um cidadão da chamada terceira idade que ao se sentir ridicularizado por uma “moderninha” atendente de uma loja de informática, respondeu: É, você parece ser muito esperta para apertar estes botões coloridos, mas garanto que não sabe o valor da raiz cúbica de oito!

O perigo, portanto, do mundo informatizado é a geração de toda uma geração de analfabetos, sem raciocínio lógico, domínio da escrita, mas exímios apertadores de botões, que se consideram muito valorizados quando espalham informações de qualidade duvidosa pela Internet, tal qual aquele maníaco que escreve impropérios nas paredes dos lavatórios, protegido pelo anonimato dos banheiros públicos.

O bom uso das facilidades da informatização só será efetivo para um povo alfabetizado com conhecimentos de matemática, ciências, domínio da escrita e uma visão social. Caso contrário teremos uma mera carneirada, bem ao gosto dos políticos desonestos e dos mistificadores religiosos dos dias de hoje.
(Teócrito Abritta é físico, escritor e colunista do jornal eletrônico Montbläat (www.montblaat.com.br).

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sonho. Sonhei

por Humberto Carneiro

Sonhei que era verdade, pensei em construirmos juntos muita coisa.
Construímos uma árvore de Natal. Ficou linda como ela, como o seu sorriso e a sua alegria.
Sonhei que ensinaria a dirigir. Ia ser muito divertido. Os erros seriam motivo de muitas alegrias e os acertos com certeza estímulos. Faria junto com ela vários testes simulados no computador para prepará-la a enfrentar o exame do DETRAN. Enfim tiraria a carteira de motorista. Iria dirigir e me ajudar quando necessário. Ia aprender a dirigir até carrinho de Supermercado... haha.
Sonhei que muitas vezes iria vê-la comer uma alcatra para dois e depois tomar sorvete. Íamos rir muito juntos.
Sonhei que faríamos muitas coisas. Iria ver um agradecimento e a preocupação com os gastos e ver nossos olhares lacrimejar entendendo que foi Deus que nos colocou próximo naquele momento.
Não pude dar a ela o Panetone que comprei e que estava na mala do carro. Ela desceu e disse que não disse. Só consegui vê-la andando com seu cabelo ‘pedra lascada’... haha. Não deu nem para tomar um café. Ela se foi. Voltará?

O telefone tilintou, pensei que fosse ela, o coração bateu mais forte. Atendi. Não era. Voltei decepcionado. Com o tempo me acostumo.

Sonhei que iria a Paraty. Ela iria gostar muito. Faríamos um passeio de barco. Visitaríamos lugares históricos. Poderia ir a Belo Horizonte. Ela ficaria com a família e eu iria a Savassi lembrar tempos passados. Depois voltaríamos juntos.
Sonhei mostrar Porto Seguro e adjacências. Ia amar. Voltaria sempre alegre com seu sorriso.
Poderia levá-la ao trabalho todos os dias e aproveitaria para dar uma volta na Lagoa e manter minha forma.
Sonhei que iria a Búzios e muitos outros lugares conviver com a alegria. Petrópolis e o Museu Imperial. Onde pudesse, levaria o sorriso dela.
Sonhei ver a alegria com o presente na árvore de Natal. Seríamos alegres.
Sonhei um dia morar junto.
Agora resta desconstruir a árvore de Natal em janeiro, desta vez sem o sorriso dela. Vou sentir muitas saudades. Difícil será desconstruir o amor que cresceu rapidamente.

(Humberto Carneiro nasceu em Curitiba e se formou em engenharia mecânica na Uerj.
É artista plástico e produz (muitos) contos nas horas vagas. Contista convidado para estreiar a nossa coluna Autor Convidado)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Entendendo a paixão

por Ana Maria Chagas

Nunca havia visto antes olhar tão triste.
Tentou explicar mas não encontrava as palavras certas.
Abaixou os olhos, apontou para o próprio peito e disse: “dói bem aqui”.

Ela começou a falar devagar depois de vários minutos em silêncio e notei que devia esperar algo muito sério.
Marcou um almoço num restaurante mais reservado do que o normal.
Imaginei que seria para experimentar alguma novidade gastronômica, mas quando a encontrei, não havia aquele sorriso aconchegante que sempre me fazia sentir em casa em sua presença.

Apenas acenou e convidou a sentar, olhando para o menu fingindo estar concentrada, disfarçando mal a tristeza.

Esperamos o garçom anotar os pedidos e respeitei seu silêncio até que ela pudesse encontrar as palavras certas, porque conheço a dificuldade de falar sobre si mesma que as raras pessoas que sabem ouvir têm.

Repetiu baixinho: “dói bem aqui”. E pude compreender tudo.
Já a conhecia tão bem.

De uma mente extremamente questionadora e curiosa, poderia passar por cética e extremamente racional. Quem a procurasse poderia encontrar uma pessoa sempre pronta a ajudar, porém deveria estar preparado para ouvir frases surpreendentes, como se ela tivesse o dom da telepatia e conseguisse buscar na sua mente justamente aquilo que queria esconder.
Mas a grande verdade é que essa moça teve poucas oportunidades de se deixar levar pela emoção e em nenhuma delas o resultado foi feliz.
E pessoas assim acabam se tornando muito observadoras – de livros e de gente – buscando sempre aprender com as experiências dos outros. Principalmente, as atitudes que nunca deveria tomar e os sentimentos a evitar como aquele que a surpreendeu distraída: a paixão.

Desde que a conheci, sua forma de saudar sempre foi: “comprei um livro novo magnífico” ou “você precisa ver este filme” e dali iniciava os comentários que depois ficariam gravados na minha memória por dias.
Com o tempo minha mente já havia se acostumado a dialogar com ela, mesmo que não estivesse próxima de mim.

E essa moça que parecia compreender as questões mais complexas do ser humano; a amiga que me aconselhou em tantos momentos; que por várias vezes vi passar a madrugada ouvindo queixas de tantos outros; que sempre tinha uma resposta positiva pra tudo; quis me mostrar que também é humana.

Segurei sua mão sem saber o que dizer.
Estava acostumado a falar, a me queixar, a esperar dela a palavra de consolo. O que dizer a alguém que parecia sempre entender de tudo e saber todas as respostas?

Não tocou na comida. Girava o copo com gelo e perguntou: “Então é assim mesmo a paixão? Onde foi parar minha razão?”

Ensaiei frases ridículas. Daquelas padronizadas que guardamos para distribuir nos momentos certos. Como se ela já não conhecesse todas.
E sem nem mesmo captá-las integralmente, saíam num fluxo contínuo, mistura de desculpas e constrangimento: “pode ser ilusão...você criou uma imagem... também pensei sentir o mesmo.”

Até que ela me olhou diretamente.
E em poucos segundos fixei naqueles olhos brilhantes de pranto tudo que nos uniu durante todos esses anos: empatias, reflexos, planos compartilhados, filosofias, visão integrada de um mundo que vivia se desintegrando dentro e fora de nós.
E a infinita insistência de ambos em dar nome de amizade àquele encontro inexplicável de almas idênticas.

Acostumados a entender um ao outro sem palavras, apesar de essenciais naquele momento, ainda assim me calei.
Tentava coordenar meus pensamentos e mal a ouvi dizer que se sentia ridícula e não podia mais esperar respostas.
Levantou-se devagar tentando uma despedida leve.
“Para sempre?”, perguntei.

E já refeita, ajeitou a bolsa no ombro e disse muito segura: “Tudo acaba quando amor e paixão começam, frase de Bob Dylan em "Não estou lá". Você precisa ver este filme.”

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sô e Sô

por Charles do Nascimento

5h50min. Chove forte. Antes do despertador tocar, Solange pula da cama, livra-se do pesadelo e logo percebe, pelo barulho da rua, pois cada minuto da manhã tem um barulho diferente, que acertara mal o relógio. Na verdade, já são 6h10min. Dez a mais, era preciso correr para compensar o atraso. Sem tempo nem para se espreguiçar, corre para a cozinha e joga fora o resto de café. Lava cuidadosamente a cafeteira e prossegue o balé sincronizado das donas-de-casa. Pega mais pó de café no armário e liga o rádio para ouvir as primeiras notícias do dia. Hoje à noite vai ao ar o último capítulo da novela, quem sabe os jornais antecipam alguns detalhes...

Enquanto o café passa, ela corre para o quarto ainda escuro e pega o vestido amarrotado, jogado sobre a cadeira. “É bom não acender a luz, senão o César acorda, coitado! Ele trabalha o dia inteiro”. Às pressas, mas sem fazer barulho, passa correndo pelo quarto onde dormem os dois filhos. “Se acordarem, não faço mais nada”.

Na padaria, antes de abrir a boca, o português se antecipa, num tom de voz elevado.
– São seis pães franceses e um leite: R$ 3,30.
– Aumentou, seu Manoel?
– Tudo aumenta, por que o pão não haveria de aumentar?
O grosso de sempre.
– Então, amanhã eu trago os 30 centavos.
– Não esqueça. E aproveite para ver se não há cascos lá em sua casa...

Enxotada da rua pela chuva, Solange retorna a passos largos para casa. Prepara a mesa, passa manteiga no pão, ferve o leite. “Nossa! Já são 6h25min. Está passando da hora de acordar o César. Ainda bem que hoje é sexta-feira”. Uma sexta-feira especial. “Foi num 12 de maio como esse, há 20 anos, que começamos a namorar”. Até a celebração do casamento, passaram-se inacreditáveis 13 anos entre namoro e noivado. A data foi cuidadosamente escolhida por ela para coincidir com o início do namoro. Não haveria como o César esquecer. “Bobagem, homem não lembra dessas coisas”. Enfim, tudo bem, hoje ela está mais preocupada com outra coisa.

O amor esfria com o tempo. Hoje é o dia do último capítulo.

Solange retoma as atividades. O marido acorda praguejando contra a
chuva, toma banho, bebe o café sem se sentar à mesa e se despede.
– Até logo, Sô – diz o pai de seus filhos. E, como faz todas as sextas-feiras, vai de carro para o trabalho. Geralmente às sextas volta mais tarde. Ela abre o portão, aguarda ao menos um sorriso tímido que não vem e volta para as tarefas do lar. Sozinha, diante do rádio, estranha: “Não vão mesmo falar nada sobre a novela?”.

Um breve cochilo no sofá e já são 7 horas. Hora de acordar o Thiago, de 7 anos. Olha o velho relógio na parede da sala. “Nossa Senhora, de manhã o tempo voa!”. Thiago, para variar, não quer tomar banho. Pentear o cabelo é uma dificuldade; colocar o uniforme, outro parto.

7h50min. Ir a pé até à escola levará, em média, 15 minutos.
– Traz logo a droga do guarda-chuva. Se chegar atrasado de novo, a professora vai me chamar a atenção.

E sai com a dor de consciência de todos os dias: Matheus, um ano mais novo, ficará sozinho em casa por intermináveis 30 minutos.
Quando volta, a chuva já estiou. Solange aproveita o sono do caçula para colocar a lavagem de roupa em dia. No bolso do marido tem um papelzinho com um nome e número de telefone. “Sofia. Quem será? Nunca ouvi falar nessa mulher. Vou ligar”, decide. Mas volta atrás: “Melhor não. Quem procura acha. Que merda de pensamentos! E a novela, vão falar nisso ou não?”.

Finalmente toma um gole de café, mas aí o outro filho acorda, chorando de fome. O balé é retomado, manteiga no pão, leite fervido, é hora de ajudar o menorzinho nos estudos. Não deu para colocá-lo no mesmo turno do irmão.

12 horas. Matheus resiste ainda mais ao banho. Pentear o cabelo é uma dificuldade, vesti-lo, outro parto. Almoça já atrasado, a mãe novamente põe a roupa de sair. Cadê tempo de almoçar junto com o filho? A pé, o mesmo percurso da manhã. Ela repete:
– Se você também chegar atrasado, a professora vai me chamar a atenção
de novo.

Volta com o mais velho, serve o almoço, Thiago dorme, graças a Deus. Agora sim, ela vai ter tempo para si mesma. Si mesma? Varrer a casa, lavar o banheiro, guardar os brinquedos espalhados pela sala. E então toca o telefone.
– Essa porcaria desse telefone vai acordar o...

É da floricultura. Perguntam se é da casa do senhor César da Silva e Souza. É que ele passou um cheque, e o rapaz precisou confirmar alguns dados. Solange parece não acreditar. “Nossa, ele lembrou! Afinal, 20 anos não são 20 dias!”. E prepara o jantar especial: macarrão com frango. Ah, e um bolo de sobremesa. “Quem sabe dona Hermengarda pinta minhas unhas para eu pagar depois?”.

Ingredientes comprados, vai com o filho mais velho ao banco pagar contas atrasadas. Ela sai da agência às cinco da tarde, corre para buscar Matheus.

O tempo vai passando. Já são quase 9 horas e nada do marido. Entra a propaganda eleitoral gratuita. Crianças para a cama. E ela deita para descansar um pouco.
– Acorda Sô! Vai dormir na cama!

Duas da manhã.

– O bicho pegou lá no parque gráfico. Deu uma pane, as máquinas enguiçaram, os geradores pifaram e aquele filho da puta obrigou todo mundo a ficar até mais tarde. Depois fui com a rapaziada tomar uma cervejinha lá mesmo em Caxias.

Sofia também mora em Caxias. Não recebeu as flores, mas ainda assim foi uma trepada inesquecível. Um ano de namoro escondido do marido dela e da mulher dele. César teve sorte, também chama a amante de Sô. Nunca iria se confundir. A mulher jamais desconfiaria. E o rival não liga tanto para a mulher. O corno é jornalista, sabe de tudo, menos do dia 12 de maio, uma data que o César nunca esquece, qualquer dia vai lembrar o porquê disso...

De repente, lembra-se do cheque na floricultura. Só no trabalho viu que não tinha cobertura. Será que ligaram para sua casa? Não. Sô, ou melhor, Solange teria dito. De qualquer maneira, resolve sondá-la.
– Que cara de sono mais esquisita! Está preocupada com alguma coisa?

Só então é que a mulher se dá conta de que esquecera algo importantíssimo:
– Ai meu Deus! Será que vão reprisar o último capítulo logo mais?


(O texto faz parte do livro Parem as máquinas: jornalistas que valem mais de 50 contos, ed. Casa Jorge)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Não quero dar adeus ao Cine Paissandu...

por Ana Maria Chagas

Hoje de manhã recebi a ligação da amiga Magali Almeida e quando comecei a dar os parabéns pelo seu aniversário, ouvi a voz mais decepcionada do mundo:
- Ana, vão fechar o Paissandu! Como é que deixam isso acontecer?

O Cine Paissandu fica no bairro do Flamengo, RJ, onde Magali esteve presente na primeira sessão de apresentação do filme Casablanca que assistiu suspirando por Humphrey Bogart.

Foi tão triste quanto receber a notícia da morte de um parente. Juro.
Não quis acreditar.

Busquei a notícia no Google e encontrei a reportagem “A Última Sessão do Estação Paissandu” de Eduardo Fradkin (O Globo - 24/08/2008 05:00:09) dizendo que após 48 anos de existência fechará no dia 31 de agosto “(...) o cinema que formou, nos anos 1960, a Geração Paissandu, rótulo que agrupava jovens cinéfilos e intelectuais de esquerda incapazes de perder os longas de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Michelangelo Antonioni, François Truffaut e outros cineastas autorais”.

Viram só? Sabe aquele tempo em que os jovens era mais antenados com os acontecimentos políticos e econômicos do país? Onde eles se reuniam? Cine Paissandu!

E daí se hoje a nova geração prefere o shopping?
Ah! Se eu pudesse ensinar aos jovens o quanto um filme de Truffaut, Kieslowski e tantos outros agregam para a formação do nosso pensamento crítico, nossa personalidade e da importância do “ser” em detrimento do “ter” tão valorizados nos enlatados americanos!

Eu que sempre me senti uma “excluída cultural” por não ter acesso à filmes estrangeiros e aos chamados “filmes alternativos” nos cinemas da Zona Norte do RJ, agora nem mesmo na Zona Sul.
E o que vão construir naquele terreno? Já não temos supermercados e igrejas demais?
Nada contra, mas além do pão para corpo e espírito, a população precisa de alimento para o raciocínio, para as novas experiências, cultura enfim.

Não quero dar adeus o Cine Paissandu.
Quero me encher de esperança de que no exato último instante - como nos filmes mais emocionantes da história – apareça a cavalaria chamada “patrocínio” e salve este maravilhoso patrimônio carioca.

Ah! Não resisto! Vou fazer um apelo:

"Empresários: uni-vos! Será que não existe nenhum empresário cinéfilo que possa ajudar na preservação e continuidade do nosso Cine Paissandu?"

domingo, 24 de agosto de 2008

Também quero brincar!

por Ana Maria Chagas


Vocês leram?
A Ieda nos convidou pra brincar!

Apresento pra vocês então meu dois xodós: Asterix e Calvin.


Tenho toda a coleção de revistas em quadrinhos do Asterix & Obelix desde menina, presenteada por meu pai. De vez em quando ainda tomo essa poção mágica de humor folheando uma delas. É revigorante e me dá uma força incrível.
E este Asterix veio da Europa (chique né?). Encomendei de uma amiga que foi à França.

Já o Calvin representa meu lado moleque e argumentador.
Sempre que preciso, olho pra ele e lembro daquela pergunta insistente que as crianças fazem e que não devíamos nunca abandonar ao crescer: "Por que não"?
Este aí comprei numa lojinha do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ).

Gostaria muito de ter também os pares de cada um: Obelix e Haroldo.

Pra não se sentirem sozinhos, coloquei juntos na minha prateleira.
Mas de vez em quando pulam pro computador. Olhem só :

Vamos lá Charles! É sua vez!

Começou a brincadeira e passei a bola pra você! >:op

sábado, 23 de agosto de 2008

Brasilidade

por Ieda de Oliveira

“(...)
Somos nós que fazemos a vida

Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah meu Deus eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
(a vida) É bonita, é bonita e é bonita.” (*)

Viver e não ter a vergonha de ser feliz (Gonzaguinha)
(*) grifo meu


Domingo acordei totalmente abrasileirada. Sintonizei na MPB FM e, sob o som de Vinícius, Simonal, Novos Baianos, Jobim, Elis, Jackson do Pandeiro entre outros não menos sensacionais, cantei e cantei e cantei. E não foi por causa do clima de medalhas, lutas, sangue e suor dos nossos atletas em Beijin, não (que, aliás, merecem aqui todo o meu carinho e palmas pelo empenho nestas Olimpíadas), mas devido à brasilidade que me abateu nesses últimos tempos.

Pois então, terminei de ler dois livros de Machado de Assis (confesso, ainda não tinha lido Dom Casmurro. Mas, mais do que nunca precisava saber, afinal, se Capitu traiu ou não traiu Bentinho. Querem a minha opinião? Depois eu digo em outra crônica, ok?) e emendei nos melhores contos de Rubem Braga. Sobrou um tempinho e li sobre cerca de 90 escritores estrangeiros, mas me impressionei e corri para ver a exposição da Clarice Lispector (a escritora ucraniana mais brasileira que o Brasil já teve) lá no CCBB, no Centro do Rio. Aproveitei e adquiri dois livros dela no mesmo dia. Mas hoje, segunda-feira, não resisti e entrei na Livraria da Travessa e comprei Doidas e Santas da Martha Medeiros, lançado semana passada.

E assim a pilha de livros vai aumentando. É preciso ser justa e manter a ‘ordem de chegada’. Mas já estou mal vista por eles (os livros). Se tivessem vida própria, já daria para ouvir as reclamações. “Lá vai ela pegar a Clarice... eu estou na fila há dois meses!” “Não, reclama, não, Saramago. E eu que estou aqui na fila desde 2006!” “Ah, tá, Luiz Fernando, quem me garante que ela não irá ler primeiro a Martha que comprou hoje”, observa Clarice. Ai, que vergonha...

Enquanto discorro sobre arte, cultura e a ‘grande descoberta’ de ser brasileira, reflito também sobre algo importante e de onde origina todo esse orgulho de ser brasileiro ou mesmo o prazer de viver, saber viver: os princípios e valores passados pelos nossos pais e pelos pais dos nossos pais e pelos pais destes. Penso e torço pelos homens e mulheres que diariamente acrescentam verdadeiros valores através de valiosas atitudes – pequenas ou grandes - e que deixam como herança – mesmo que ofuscada pelos valores vendidos por outras culturas – aos filhos, aos seus futuros homens.

A arte, a cultura, o trabalho, a religião, a dignidade sobrevivem através de poucos que estão aí... lutando para ver o mundo melhor. E o mundo melhor, não é aquele dia quando o sol está bonito lá fora e vai dar praia ou quando o Brasil ganha uma Copa do Mundo (tão patético exemplo), não. O mundo melhor é o seu! É aquele que você pode oferecer ao outro. É o mundo que você oferece a sua família, que a família oferece a sua comunidade, que a comunidade oferece ao seu bairro, que a oferece a sua cidade, que oferece ao seu estado, que oferece ao seu país, enfim, ao resto do mundo!

Portanto, o meu mundo melhor hoje é fazer uma boa leitura, indicar uma boa exposição que resgate mundos melhores do passado, ouvir um bom CD de chorinho (gravado na Lapa, hein!), dar uma ou duas voltas na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou mesmo naquela pracinha simples perto de casa e comer um pastel que só lá se faz, ou escrever aqui o quanto eu desejo que o mundo seja sempre o melhor para você!

Nossos Betinhos

por Ieda de Oliveira



Saudades do Betinho (ver em 4/8/8) teve ótimos comentários. Uns foram a favor de um resgate cheio de estratégias da casa de minha sobrinha Alessandra, outros refletiam sobre os seus próprios ‘Betinhos’. Meninas e meninos quarentões que, no fundo, no fundo, ainda mantém seu 'betinho' guardado em casa – ou na casa dos pais, pelo menos.

Tais 'betinhos' podem estar representados através de uma coleção de miniaturas ou de um boneco do Star Trek ou do Falcon; ou de uma boneca Susie ou alguma mais antiga ainda; ou num anel achado numa caixa de sucrilhos. Podem estar representados na compra daquele almanaque dos anos 70, 80, 90 (até do Fusca!) ou daquele livro maravilhoso e inesperadamente encontrado numa feira de livros antigos...

Cada um tem o seu betinho da forma que melhor lhe fizer bem.

By the way, qual é o seu Betinho?

**



Betinho no aniversário de 25 anos da Alê, no dia 10.

Ieda

domingo, 17 de agosto de 2008

Olhares...

por Ana Maria Chagas

Vocês já observaram uma cena poética, original, por vezes indescritível e na hora H não tinha uma câmera fotográfica?

E quando uma cena diz muita coisa pra você, mas não adiantaria fotografar porque o sentimento é todo seu? Daí você quer contar pra alguém, mas as palavras parecem não conseguir exprimir todos os detalhes. Nem da cena observada, nem do seus sentimentos em relação a ela. E parece que o encanto pertenceu só aquele minuto e não pode ser repassado a ninguém.

Moro próximo à uma praça e da janela posso observar diariamente alguns momentos poéticos despertados pelas pessoas que a freqüentam, pelas árvores ao redor e pelos pássaros que moram nelas, como estes:

- O olhar do menino era como o céu ao escurecer misto de azul e o negro – e refletia a vitrine da loja onde, de nariz colado, fixava o pequeno caminhão de bombeiro exposto à venda. Sabia que o pai estava impaciente para ir embora, mas não podia perder nenhum detalhe do que passou a ser seu mais novo objeto de desejo infantil, para melhor relatar quando a zanga do pai já tivesse passado.

- O homem inquieto, a cada minuto olhava o relógio e ao redor. Era jovem, meio gorducho e, por vestir uma camisa larga sobre a bermuda comprida até aos joelhos, parecia baixo e atarracado. Um boné disfarçava um princípio de calvície e nos pés usava tênis já meio gastos. De repente, algo lhe desperta a atenção ao olhar. Retira o boné acertando os poucos fios rebeldes, alisa a camisa decidindo que ficaria melhor por dentro da bermuda e busca no banco onde estivera sentado uma rosa embalada em celofane. Recebe o abraço de uma moça mais alta e sorri como aliviado. Teria sido perdoado?

- Justamente no meio do inverno, uma pequena vegetação que vinha crescendo com galhos ressecados em meio a um pequeno canteiro mal tratado, resolveu florescer. Uma, duas...muitas flores amarelas. Localizada próximo ao movimento intenso de um ponto de ônibus, mesmo vestida pelo sol da manhã, ninguém a notou.

- Verão. Calor. A cabeceira da cama colocada embaixo da janela não foi proposital, mas por falta de espaço. E numa linda manhã ao despertar, vimos um pequeno beija-flor investigando o quarto. Nossa surpresa o assustou. Vimos que voltou ao ninho, no galho mais alto da antiga amendoeira do centro da praça e deve ter vindo apenas avaliar se havia perigo ao redor. Ou seria um simpático gesto de visita aos vizinhos?

Por favor, não me acusem de voyeurismo. Afinal, de médico, louco e voyeur todo mundo não tem um pouco?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Rebobinamento digital

por Ieda de Oliveira

Esta semana, resolvi substituir o bloquinho de anotações pelo meu velho gravador. Em vez de ficar escrevendo, registrar as idéias para as minhas crônicas no tape. Na hora do almoço saí à cata de uma fita Cassette (ou K7, lembram?). Uma colega do trabalho foi logo me avisando: 'Você não vai encontrar...' Como não? Não acredito que as fitas Cassette já estejam todas abolidas, gente! Apesar de toda essa tecnologia nova, as fitas devem estar sendo vendidas em algum lugar. E os repórteres gravam com o quê, então?

A primeira loja, um laboratório fotográfico. A vendedora não entendeu a pergunta. 'É uma fita Cassette, aquela que a gente coloca num gravador e...' Eu estava praticamente fazendo mímicas e ela continuou sorrindo, ou melhor, continuou não entendendo do que se tratava exatamente.
Comecei a ficar preocupada. Não pelo fato de não encontrar mais a bendita fita, mas por começar a me sentir velha e ultrapassada. Já, meu Deus!? A situação lembrou os relatos do meu pai sobre gramofone, transistor de rádio, válvulas de televisão etc. E agora, eu aqui, passando pela mesma sensação que o coitado devia passar quando eu o olhava como se estivesse relatando sobre a vida em outro planeta; ou mesmo a minha mãe quando dizia que qualquer aparelho com mais de dois botões, nem precisava comprar para ela.

A segunda loja, uma mega store. Na minha opinião, ou esperança, como queira, ali eu encontraria, ao menos, algumas.
Um vendedor chamou o outro para ajudar. Precisava mesmo? Uma convenção começou a se formar:

- A senhora quer dizer gravadores com microfita, certo? - disse o segundo vendedor.

- Não, microfita é para secretária-eletrônica. Eu quero aquelas fitas maiores, tamanho padrão para gravador, gravador, sabem...?
– comecei de novo com as mímicas. - Não é fita pra vídeo, não, hein...

- Ah... então é o gravador digital.

- Gravador digital? Digital? Mas gravador digital não é aquele gravador de DVD, não? -
Será que se eu falasse do walkman, eles atinariam pra coisa ou ririam na minha cara?

- Não, este usa USB PDR180 ou RR-US450, depende do mod...
– informava o primeiro vendedor.

E pronto. O pânico se instalou de vez. Não entendi ou ouvi mais nada. Agora era real: eu estava vivendo em um mundo paralelo ao meu. Eu me senti um personagem de Além da Imaginação! Falava de algo que ninguém sabia do que se tratava!


E isso não é de agora. Na festa de vinte anos de formatura, em 2006, a filha de um ex-colega de faculdade ficou impressionada por não existir celular na nossa época: 'Como os caras faziam para avisar às namoradas que estavam chegando e que era pra descer?' Humm... Sabe que não me lembro mais!
É... só sei dizer que de lá para cá comecei a ficar receosa. Para mim, ainda era cedo para preocupações com a idade; eu recém-chegada à casa dos 40. Mas agora a coisa estava ficando, digamos, mais pesada para o meu lado.

Mas é fato. Adaptação é a palavra de ordem. Como no exemplo clássico daquele torneiro-mecânico que se preocupava em perder o emprego para um robô, que certamente tomaria o seu lugar porque tinha tecnologia capaz de desenvolver as tarefas diárias de maneira bem mais rápida que o ser humano. Foi aí que alguém sugeriu ao operário que aprendesse a manejar o robô para se manter no mercado. Nada mais acertado a ser feito: se adaptar às novas metodologias de trabalho. No meu caso, às novas mídias de comunicação.

O avanço da tecnologia ganha cada vez mais espaço na vida da gente. Mesmo que queiramos fugir ou bater o pé 'que nem o celular' vai usar, a tecnologia ainda vai te 'pegar'. Ainda outro dia mesmo, um amigo foi ao Ministério da Fazenda e para ser atendido precisava de senha. 'Claro, aonde pego?' 'Pela internet, no site da Fazenda.' É isso: senha pelo site. E quem não tem acesso a computador...

Resistente (puxou ao pai), ontem eu me peguei pesquisando no Google por modelos de gravadores... digitais. Adaptação, ainda que tardia...


PS.: Depois de ir a mais três lugares naquele dia, encontrei as fitas K7 em uma lojinha pertinho do trabalho. Se alguém aí quiser o endereço...

E apenas por curiosidade arqueológica:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cassete
http://www.tapedeck.org/

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Lar, doce bar

por Charles do Nascimento

O grande Moacyr Luz, sambista da primeira grandeza, está fazendo sucesso também no mercado editorial com a obra Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos. O livro estimula a reflexão sobre as práticas e tradiçõesno Rio de Janeiro, com base nos hábitos e comportamentos que caracterizama maneira própria de ser do cidadão carioca. A publicação, um relato importantesobre a memória cultural do Rio de Janeiro, reúne depoimentos e registra aspectos da cidade e os valores de uma cultura muito peculiar, que ainda influencia o resto do país.

Em outro livro (Meu lar é um botequim) Eduardo Goldenberg rende homenagemaos botequins mais vagabundos (e irresistíveis) da Tijuca e de Vila Isabel, bairros da zona norte onde o autor nasceu e foi criado, respectivamente. Outras publicações pegaram carona no mesmo mote e estão 'pipocando' por aí. A própria prefeitura municipal, há alguns anos, patrocina a publicação de um guia sobre os melhores botecos do Rio.

O redator-que-vos-fala também não resiste a um bom pé sujo. E ao longo de três décadas de freqüência assídua (sobretudo antes do matrimônio), coleciona histórias saborosas para compartilhar com os amigos próximos e os amigos de ocasião. Uma delas foi contada recentemente, pelo próprio Moacyr Luz, durante um bate papo em Santa Tereza.

O autor de Saudades da Guanabara conta que, segundo a lenda, o cliente teria chegado a um bar, olhado a vitrine e escolhido o salgado a seu gosto.

- Eu quero aquele quibe. - disse o cidadão, com ar um tanto autoritário.
Sem perder a pose, o português por detrás do balcão respondeu prontamente:
- Que quibe porra nenhuma!.
Com um pano de prato pra lá de encardido, espantou as moscas da vitrine e retrucou:
- Isso aqui é ovo cozido, vai querer ou não?

Se fossemos fazer uso deste espaço para narrar histórias e anedotas de botequim, esse blog seria pequeno. Mas uma tendência estranhamente moderna é dignade nota: a idéia recorrente de os novos proprietários 'modernizarem' alguns dos mais tradicionais pés-sujos da cidade. A novidade, que começou pelos estabelecimentos mais famosos do centro e da zona sul, está se estendendo para botecos bem mais modestos, situados em bairros mais distantes. Pois fica aqui um protesto! Freqüentador de verdade não tolera botequim de grife. Esses bem limpinhos, metidos a besta que reúnem mauricinhos, patricinhas e pseudos-intelectuais de ocasião. Em geral, cobram um preço exorbitante e a comida não presta.

Em tempos de globalização, essa tendência chegou também à longínqua e aprazível Vila da Penha, Zona Norte do Rio. O próprio redator-que-vos-fala foi vítima. Após um dia exaustivo de trabalho (e qualquer trabalho é exaustivo), embarcou no ônibus da linha 350? Passeio-Irajá. Até chegar ao destino, a 28 Km dedistância, foi necessário ficar 1h30 esmagado entre mais de 120 passageiros.

Como ninguém é de ferro, antes de começar a segunda jornada de 'tarefas' no seu sacro santo lar, resolveu dar uma paradinha 'tudo muito rápido' no bar em frente ao ponto de ônibus. E eis que para minha surpresa um dos meus pés-sujos prediletos desapareceu. Como num passe de mágica, simplesmente virou pé limpo. Agora foi todo reformado, pintado, ganhou balcão de madeira, piso branco, mesas de granito etc e tal. No cardápio, hambúrguer, hot dog, açaí com granola. O banheiro está mais cheiroso do que o lá de casa... Enfim, ficou tudo uma grandessíssima merda!

O empresário que financia um absurdo desta monta, na realidade não reconhece o verdadeiro papel social do seu negócio. E fica aqui a nota de desagravo. Salvem os últimos pés sujos remanescentes, que deveriam ser tombados como patrimônio cultural da cidade! A cantora Alcione, em uma de suas mais brilhantescomposições, faz um relato definitivo:

Mesa de bar
É lugar para tudo que é papo da vida rolar
Do futebol, até a danada da tal da inflação
É coração, fantasia e realidade
É um ideal paraíso adonde nós fica a vontade

Mesa de bar
É cerveja suada matando a pau o calor
Vamos cantar aquela cantiga que fala da luta e do amorMas antes brindar em homenagemAqueles que já não vem mais
Saúde pra gente, moçada, que a gente merece demais

Em torno de um copo a gente inventa um mundo melhor
A dona birita levanta a moral de quem está na pior
A água da mágoa se enxuga no pano daquela toalha
Pra acabar com a tristeza
Esse remédio não falha

Na mesa de um bar todo mundo é sempre o maior
Todo mundo derrama as tintas da sua alegria
Copos batendo na festa da rapazeada
Se bem que a gente não esquece que a barriga anda meio vazia

É que mesa de bar é onde se toma um porre de liberdade
Companheiros em pleno exercício de democracia
Mesa de bar é onde se toma um porre de liberdade
E companheiros em pleno exercício de democracia

sábado, 9 de agosto de 2008

Dia das meias (ou melhor, dos Pais)

por Ieda de Oliveira

Eu me lembro das comemorações aos Dias dos Pais na época de menina, ainda na escola pública, época na qual os nossos pais eram sempre surpreendidos com um presente inusitado: um par de meias! Ehhh! Invariavelmente, a lembrancinha era grudada em alguma figura, cujo formato lembrasse uma bola, gravata ou sapato recortados em cartolina. Não havia outra coisa para dar de presente aos pais: eram meias, meias ou... meias! Todo ano! Mas justiça seja feita, ao menos as cores variavam. Ou eram beges, brancas (as minhas preferidas), pretas, listradas... As meias procriavam. Acho até que a minha mãe estocava pares e mais pares de meias. Pois, no ano seguinte, com toda certeza, a escola pediria às mamães para levarem um (novo) par para que o pimpolho pudesse 'surpreender' o papai no segundo domingo de agosto. Pior talvez fosse para os pais de filhos que estavam em creches e que recebiam alguma coisa não identificada feito à mão – chique, né! – e pintado de modo a provocar inveja a qualquer artista plástico vanguardista.
E no grande dia, então, cabia aos queridos homenageados exibirem o seu melhor sorriso e deixarem aflorar todo o talento de ator para externar o ar de surpresa ao ser agraciado com (mais) um par de meias do filhão – no caso do ‘seu’ Evilásio, da filhona aqui.

Mesmo quando garotinha, eu ficava cismada com as escolhas da escola no quesito lembrancinhas. Meias? De novo? Como meu pai, eu me surpreendia todo ano com esta escolha. Pô, achava a maior falta de criatividade presenteá-lo com (mais) um par de meias. Seria a minha mãe realmente cúmplice dessa tramóia escolar?? Não lembro de vê-la entregar par de meias algum à professorinha... Será que os homens não gostam de outra coisa? Será que não apreciariam receber algo diferente? – eu me questionava. Não era possível que um pai realmente amasse tanto receber (mais) um par de meias e, ainda assim, externassem aquela alegria e surpresa que sempre nos convencia ser de muita satisfação.

E era realmente... satisfação.

Não eram as meias de marcas desconhecidas ou – quando a escola raramente variava – o pente Flamengo ou o lenço Presidente que deixavam os nossos pais tão felizes. Era o carinho, somado à inocência dos seus filhos aos lhes presentearem com algo tão simples. Qualquer algo. Fossem meias, lenços, pedras pintadas ou mãozinhas coreografando um pôster. O que os faziam de fato felizes era ser pai e ver o brilho nos olhinhos dos filhos ao homenagear o cara mais importante da vida deles.

"Ah, meu filho... não precisava!" E não precisava mesmo, acredite. "Me basta o seu carinho, o seu amor e a sua presença...!" É verdade. É a mais pura verdade. A gente não acredita quando somos filhos. Mas quando nos tornamos pais, (re) descobrimos que os melhores presentes de um filho são os reais sentimentos demonstrados por eles. O orgulho de receber de volta os valores e o amor passados desde o nascimento.

Mas muitos anos me separam daquelas meias de marcas desconhecidas. Os presentes evoluíram e o meu ‘velho’ mais ainda como pai. Ainda lembro do dia em que ele chegou e me disse com a voz levemente embargada: "Minha filha, a partir de hoje eu serei o seu pai e a sua mãe..." e me abraçou chorando. Foi a maneira que encontrou de me informar da partida de sua companheira de quatro décadas, há quase 17 anos. E até hoje, com saudáveis 82 anos de idade, dá conta dessa promessa! Mais presente do que nunca na vida dos três filhos. Como pai, superou as próprias expectativas. Está sempre repetindo para quem quer que seja que os filhos são o seu esteio. Mal sabe que ELE é o nosso esteio. Diante dele, ainda nos sentimos adolescentes dependentes da segurança e do apoio paterno. Acredito que ele ainda nos veja, literalmente, como crianças e não como 'coroas' na casa dos quarenta e cinqüenta e poucos anos. O 'velho' ainda segura as nossas mãos e nos recomenda atenção ao atravessar as ruas, fechar as portas e janelas ao se deitar e evitar estranhos que nos abordam. E toda noite, reza para a Nossa Senhora de Aparecida pelos pimpolhos das meias de sua eterna e extensa coleção.

Feliz Dia dos Pais a todos!

Feliz Dia dos Pais, pai!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ô pai!

por Ana Maria Chagas

Ah! Lá vem mais uma comemoração do Dia dos Pais e eu aqui com muita saudade do meu.
Ô pai! Como gostaria de poder andar no seu carro novamente pelas ruas do Rio, com você ao volante, parar num sinal, vê-lo apertar o botão que aciona o “limpa- vidros” desregulado, fazendo a água espirrar como um chafariz na direção da vítima parada ao nosso lado com a janela do carro aberta, fingir não olhar e manter-nos sérios até estarmos bem longe para enfim soltar gargalhadas ao vento.

Ele adorava dirigir, mas por causa da idade, foi se tornando distraído ao volante se envolvendo ocasionalmente em pequenos acidentes que o aborreciam muito, mas nos divertiam muito mais. Uma vez, em meio ao trânsito próximo ao Norte Shopping, na Zona Norte do RJ, não freou a tempo e esbarrou de leve no pára-choque do carro que estava à sua frente. Talvez por se tratar de um zero quilômetro ou por imaturidade, o motorista saiu do automóvel, olhou para o pára-choque irado e disse:

- Vai ter que pagar! Eu sou advogado! Eu sou advogado!
E meu pai com toda a calma que seus cabelos brancos lhe ensinaram respondeu:
- Não tenho dinheiro pra te pagar não! Eu sou aposentado! Eu sou aposentado!

Além de brincalhão, esse velhinho era também muito corajoso. Aos 70 anos de idade, lembro do assalto à mão armada que sofreu em 1999. Num gesto insano de defesa de seu patrimônio mais querido - um Passat 1975 – ele reagiu à ordem de entregar o automóvel para o sujeito armado sentado ao seu lado, acelerando ainda mais a velocidade e entrando na contra-mão da Avenida dos Democráticos, no bairro de Bonsucesso - RJ onde morava, lutando com o assaltante pela posse do volante até chegar ao final desta mesma avenida onde havia uma delegacia. E com uma perícia de causar inveja aos filmes de James Bond, subiu a calçada freando bruscamente, fazendo correr os policiais que ali estavam e o próprio assaltante que abandonou o carro às pressas sem olhar para trás.

Após esta overdose de adrenalina, para minha angústia, recebi seu telefonema contando a aventura da noite e de tão excitado, nem ouvia minhas súplicas pra que viesse dormir na minha casa:

- Ô pai! E se o ladrão voltar aí pai?, disse eu.
- Por isso mesmo que tenho que ficar aqui, ué! Ele pode voltar!
- Ô pai! Deixa de ser teimoso!

Mas na manhã seguinte me visitou, aparentando medo. Parecia um menino que fez algo de muito errado. Ouviu minhas repreensões, fez cara de arrependido e depois me contou com todos os detalhes o que poderia ter sido mais uma tragédia daquelas que lemos quase que diariamente nos jornais.

Perdoem-me amigos leitores. Pensando em escrever algo interessante para vocês hoje, só conseguia pensar em como ando doída de saudade.
Saudade do barrigão difícil de contornar com os braços, dos ombros de travesseiro, dos cabelos de neve e dos lindos olhos castanhos esverdeados que diziam mais do que qualquer palavra.
Eram seus olhos que comunicavam seus sentimentos.
Durante sua existência na Terra, presenciei neles alegrias, mágoas, preocupações e tristeza, mas não me recordo de vê-los com raiva de ninguém. Por mais zangado que estivesse por fora, os olhos mostravam que já havia perdoado por dentro.

Creio que sabia que não adiantava querer convencer a menina rebelde e metida à sabe-tudo que fui (fui?) com palavras, então simplesmente ficava olhando – divertido ou preocupado - meu descontrole emocional (e hormonal!) periódico de adolescente.
Acredito na vida após a morte e que um dia iremos nos reencontrar, mas isso não evita que eu sofra pelas coisas não ditas. Ah! As coisas que eu não te disse. Já são mais de três anos que relaciono todos os assuntos e sentimentos que deveria ter compartilhado e as diversas formas de declarar amor que deveria ter expressado melhor a você enquanto presente fisicamente. Será que consegue mesmo sentir isso tudo onde está agora?

Foi muito dolorido vê-lo partir, porém hoje acredito que, por seu espírito ter continuado muito jovem e repleto de energia, já não cabia mais naquele corpo físico tão envelhecido. Foi preciso então despi-lo, assim como despimos as roupas que já não precisamos mais, e assumir um novo corpo mais forte: o corpo espiritual e eterno por meio do qual continuamos nossa jornada de evolução e trabalho junto ao Grande Arquiteto do Universo.

Ô pai! Se pode mesmo me ouvir, saiba que te amarei pra sempre.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Saudades do Betinho

por Ieda de Oliveira

Quando eu tinha dez anos de idade, a nossa escola levou os alunos para conhecer o Regimento de Polícia Montada da PM, em Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro. Foi o acontecimento: passeio de ônibus, bagunça... E o mais importante: ficar sem aula.

Um militar nos acompanhou pelos quatro cantos, explicando tudo o que víamos.
Depois de falar sobre a história do Regimento, raças de cavalo, patentes, ordem e progresso, o martírio de três horas chegou ao final com uma surpresa para a molecada: um brinquedo e um livrinho infantil!
Obviamente o brinquedo dos meninos foi uma bola colorida. E o das meninas, claro!, uma... um boneco? “Ei... eu recebi um boneco!”, retruquei. As sacolas para as meninas tinham sido distribuídas fechadas. Portanto, não dava para ver o que havia dentro: boneca ou boneco.

Eu não gostei nada, nada. Fiz de tudo para trocar o tal boneco. Em vão. Ninguém queria trocar uma bonequinha linda, toda rosinha e de lacinho na cabeça por um boneco que segurava uma bolinha de futebol. E já tinha até menina batizando a boneca de Rita de Cássia – o equivalente a Maria Eduarda hoje.

Frustrada, levei o meu bonequinho de borracha (de pijama e bonezinho azuis) para casa e dei o nome de Betinho.
Betinho morou em todos os cantos do meu quarto. Perto da janela, perto dos livros, dentro de gavetas. Sumia por uns tempos e ressurgia num cantinho qualquer.
O tempo foi passando e, naturalmente, fui me desfazendo dos meus brinquedos. Mas nunca desfiz do Betinho, que me viu crescer, me tornar adolescente, dançar aquela música barulhenta na frente do espelho, chorar pelo primeiro amor, estudar para o vestibular e festejar o primeiro emprego. Foi um companheiro silencioso.


Quando eu tinha dezenove anos, a nossa família cresceu: nasceu a minha primeira sobrinha. A minha irmã e o marido trabalhavam e deixavam o bebê lá em casa para a minha mãe tomar conta. Nessa época, eu já trabalhava e estudava à noite.

Depois de algum tempo, dei por falta do Betinho. Ele não estava no seu lugar de costume (que por me aturar durante anos, enfim havia conquistado um lugar fixo e de honra).

- Ah, o bonequinho Betinho... Tá com a Alessandra.
- O queee?!
- Só assim ela pára de chorar e me dá descanso.
- Caramba, mãe... Dar biscoito para ela não resolve mais não?

Por eu não ser mais criança, a minha mãe não via sentido, depois de velha, em manter brinquedos e, portanto, não via problema em dar o tal boneco para distrair a neta. E , por outro lado, eu não tinha coragem de dizer que estava com ciúmes do (meu) brinquedo.

Ver o Betinho sendo sacudido e jogado para lá e para cá me doía mortalmente o coração. Era como ver a aflição daquele gatinho nas mãos da Felícia ou do cowboy Wood sendo estraçalhado pelo cachorro do vizinho! Mas a minha mãe me garantia que ela brincaria direitinho. É... mas certa vez a vi mordendo sem piedade o pompom do boné do Betinho! Eu quase sofri um infarto. Tive vontade de tomá-lo das mãos dela; resgatá-lo daqueles dentinhos afiados antes que fosse tarde. E foi o que eu fiz: para evitar o berreiro, a subornei com dois biscoitos Maria da Piraquê.


Quando eu tinha vinte e cinco anos, já ocupada demais, vi o (meu) Betinho enfeitando o quarto da Alessandra. Minha irmã me revelou que a filha era simplesmente apaixonada pelo bonequinho!
Matutei, matutei... Mas tirar brinquedo de uma menina de seis anos seria mais difícil... Ela não seria mais facilmente 'comprada' com um biscoito de novo.... Talvez um Trakinas...!

Nos anos seguintes, o Betinho morou em todos os cantos do quarto dela. Perto da janela, perto dos livros, dentro de gavetas. Sumia por uns tempos e ressurgia num cantinho qualquer. O tempo foi passando e, naturalmente, a Alesssandra foi se desfazendo de seus brinquedos, mas nunca se desfez do Betinho. Betinho a viu crescer, se tornar adolescente, dançar aquela música barulhenta na frente do espelho, chorar pelo primeiro amor, estudar para o vestibular e se formar.

No próximo domingo, Dia dos Pais, a Alessandra completa vinte e cinco anos de idade. Ocupada demais. Mas até hoje o Betinho tem o seu lugar de honra aonde quer que ela esteja.


Ainda há uma disputa velada quanto à posse do Betinho. Ela sabe que ele é meu por direito. E eu sei que ele é dela por herança. Ainda tenho ciúmes dele. Embora eu não veja dessa forma, temo parecer demasiadamente infantil e, portanto, evito discutir ‘os direitos’ sobre o Betinho em família.

Em sua crônica sobre mulheres que ainda mantém os seus bichos de pelúcia, a escritora Martha Medeiros cita um comentário do professor de filosofia Amílcar Bernardi: “o bicho de pelúcia (no caso, o Betinho) é a ligação da mulher com sua inocência perdida. O bicho de pelúcia é a materialização da sua feminilidade em um mundo onde ela foi obrigada a rugir para se dar bem. O bicho de pelúcia é a sua virgindade preservada, seu lado Sandy, a sua síndrome de Peter Pan: o espelho do quarto diz que ela está envelhecendo, enquanto que os bichinhos de pelúcia em cima da cama dizem não.”

Talvez somente agora, ao ler o comentário, eu compreenda melhor a razão pela qual, de vez em quando, preciso ver o Betinho ou ter notícias dele.

Quando me reencontra, ele vê passar toda a minha história diante dos seus olhos. Quando o reencontro, vejo passar aquela menina de dez anos.

- É... ainda estou por aqui, Betinho!

Ele sorri para mim.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Desculpa qualquer coisa!

por Charles Nascimento

Na semana passada, Cafezinho com Letras recebeu a visita de José Sérgio Rocha, que ainda fez a gentileza de publicar no blog uma mensagem. Para quem ainda não teve o prazer de conhecê-lo, trata-se de um jornalista jurássico (às vésperas de celebrar o sexagenário) que, entre idas e vindas, trabalhou nos principais veículos de comunicação do país - Jornal do Brasil, O Globo e Diário de Notícias. Foi correspondente nas agências EFE e Latin Reutters, autor da biografia de Roberto Silveira (o pai) e outros tantos livros como gost writer.

O redator-que-vos-fala teve a honra de trabalhar com o ‘mais ilustre morador de Niterói’ por quase três anos. Na época, ele havia sido convidado para coordenar uma equipe de seis redatores. Sua importância para o setor pode ser resumida por meio de uma metáfora futebolística, ultimamente muito em voga: “o cara conhece os atalhos do campo entre um simples fato e a notícia”. E seus textos são elaborados com rara maestria.

Logo no primeiro encontro, Zé fez uma advertência ao redator-que-vos-fala: “Esqueça tudo que você aprendeu na faculdade. Vou te ensinar a escrever”. Desistiu antes de cumprir a promessa e saiu à cata de novos desafios – mais fáceis, evidentemente. Porém, o fracasso na tentativa de alfabetizar este redator não traz nenhuma mancha ao seu currículo. E nem causou alguma mágoa. Ao menos não, por parte deste redator. Absolutamente!

Com o tempo, o redator-que-vos-fala aprendeu que, via de regra, as grandes empresas comunicação têm em suas staffs quatro perfis diferenciados de jornalistas: os que apuram bem e escrevem mal; outros exatamente ao oposto, que apuram mal, mas escrevem razoavelmente bem. (Nota: Quando orientados corretamente pela chefia imediata, ambos se completam e acabam por desenvolver uma rotina de trabalho aceitável. Passam a vida transitando pelas redações até que encontram um par perfeito, descobrem que nasceram um para o outro e se acomodam até o fim do ciclo).

Do terceiro time de jornalistas comungam os camaradas que costumam ser apelidados de ‘grande figura humana’. Em geral, não sabem apurar, muito menos escrever. Mas estão sempre dispostos a pegar um cafezinho, verificar a grafia correta de um determinado nome estrangeiro, fazer uma pesquisa um pouco mais chata na Internet. Após a labuta, também estão sempre a postos para o tradicional choppinho de fim de noite. Em geral, têm vida longa ...

O velho Zé faz parte do seletíssimo quarto grupo, que apura as notícias e as transfere para o papel com a mesma maestria. A esmagadora maioria dos que têm perfil com tais características está ocupando função no primeiríssimo escalão da imprensa nacional. Zé é uma das raras exceções. Continua ‘pobre, pobre, pobre/De marré de si’, a exemplo deste redator (cujo talento passa ao largo). Mas aí, no caso dele, vale um adendo: o pavio do cara tem menos de um milímetro, é curtíssimo! E só isso explica sua ausência no rol dos novos emergentes ‘enricados’.

Esse blá-blá-blá todo veio à mente do redator-que-vos-fala porque em sua mensagem o Zé Sérgio solicitou histórias sobre pobreza, especialidade da casa – não as narrativas, mas a pobreza em si. Lembrei logo dele, não sei o porquê. E já que vocês perderam tempo suficiente para chegar até aqui, não custa (quase) nada ler os próximos quatro parágrafos.

Na justa hora em que os Correios decretaram o fim de uma paralisação nacional, a Caixa Econômica Federal anunciava o pagamento do terceiro maior prêmio da história, uma bagatela superior a R$ 50 milhões. Também graças ao fim da greve, os carnês de crediário, taxas, impostos e cartas de cobranças estão chegando à residência do redator-que-vos-fala às pencas – antes, ao menos, era feita em doses homeopáticas.

Diante da papelada a pagar, as cifras distribuídas pela Caixa mexem com o imaginário popular de qualquer cidadão: carrões, viagens, mansões, mulheres bonitas, ócio remunerado e por aí vai...

Pois o redator-que-vos-fala é bem mais humilde. Fosse ele o felizardo a receber a mecharia, logo no dia seguinte compraria apenas uma TV 14 polegadas – não precisava nem ser de tela plana.

Explico: a compra seria feita em 48 parcelas numa grande rede de departamentos. O redator-que-vos-fala pagaria a primeira prestação no ato e jogaria o carnê na lata do lixo, para ter a mais absoluta certeza que não o encontraria nunca mais. Pronto! Daí a dois ou três meses o nome do mais novo devedor-milionário do país seria inserido no temido Serviço de Proteção ao Crédito (SPC).

Como o redator-que-vos-fala nunca mais ia sequer cogitar a idéia de comprar nada financiado, o nome sujo não lhe traria grandes inconvenientes. De quebra, iria manter a quilômetros de distância aquela pobralhada oportunista que passa a vida precisando de fiador ou do seu nome emprestado para ‘tirar’ um produto aqui ou ali

Pobre não compra nada, ‘tira’. Mas esse também é tema de outro texto. Obrigado pela visita galera! E desculpa qualquer coisa!

terça-feira, 29 de julho de 2008

Você pensa demais...

por Ana Chagas

"Você pensa demais!", diz a amiga.
"O filho tá crescido."
"O marido tá bem servido."
"O emprego tá garantido."

"Você pensa demais!", diz a irmã.
"O pai melhora a cada manhã."
"A mãe fez torta de maçã."
"O importante é ter toda a família sã."

"Você pensa demais!", diz o filho.
"Tirar notas baixas, é normal."
"Vem escutar esse som LOUD!
"Caraca, mãe! É na moral!”

"Você pensa demais!", diz o tempo.
”Não espero mais teu sorriso.”
"Envelheço teus traços e aviso:
"Vê se perde um pouco de juízo!"

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Discutindo a relação...

por Charles Nascimento

O redator-que-vos-fala é filho único, foi o primeiro neto, primeiro sobrinho, primeiro afilhado, primeiro quase tudo. Tinha boas chances de virar um belíssimo boiolão, segundo crença do imaginário popular. Contrariando sua vocação natural, cresceu heterossexual – um tanto por opção, outro tanto por influência dos mais velhos.

Com o tempo, porém, descobriu que a convivência com o sexo oposto nem sempre é tarefa das mais fáceis. O casamento, na avaliação do redator-que-vos-fala, é resultado da obsessiva compunção do ser humano em contrariar as forças divinas. Se fossemos criados para viver aos pares, seríamos concebidos de dois em dois. E pronto! Assim como não temos asas – portanto não deveríamos nos atrever a voar – não são prudentes as relações estáveis com o sexo oposto. Simples assim!

O problema na esmagadora maioria das vezes deriva do DNA feminino, devido à uma estranha tendência de complicar a vida combinada com uma leve pitada de complexo de inferioridade. Caros amigos do sexo masculino, que insistem ritos do matrimônio, vejam se reconhecem os diálogos abaixo:

Em casa

– Você acha que eu estou bem com essa roupa?
– Está ótima!
– Fala a verdade?
– Estou falando...
– Vou trocar?
– Por que?
– Está muito apertada.
– Então por que você vestiu?
– Por que cabia perfeitamente em mim. Não sei o que ouve? Você acha que eu engordei?
– Não sei, talvez.
– Pode ir sozinho. Não vou mais a porcaria de festa nenhuma?
– Mas o que ouve?
– Você disse que eu estou gorda. Está ironizando.
– Mas eu não disse nada disso...
– Não disse, mas pensou. É muito pior. Você quer que eu vá só para me humilhar na frente daquelas suas amigas galinhas. Fica lá com as suas queridinhas magrinhas. Cuidado porque você vai me trocar elas te colocam um par de chifres na primeira oportunidade.
– Tudo bem! Se você não quer ir, então não vamos mais.
– Por que você não quer que eu vá? Tem alguma coisa lá que eu não possa ver? Para mim chega! Me leva para casa da minha mãe.

No carro

– Em que você está pensando?
– Em nada.
– O que está acontecendo?
– Já disse: nada.
– Acho melhor a gente dar um tempo.
– Tudo bem.
– Eu sabia. Você quer terminar comigo. Já tem outra. Quem é a vagabunda?
– Não disse nada. Foi você que pediu um tempo.
– Pára de correr com essa merda desse carro. Ficou nervoso porque eu descobri suas sacanagens?
– Que sacanagens? Estou exatamente na mesma velocidade. Não estou correndo.
– Por isso que você queria que eu fosse para casa da minha mãe, para ficar na putaria? Vou voltar para a minha casa. Não te darei esse gostinho.

No quarto

– Você já está dormindo?
– Estava. São 3 horas da manhã.
– A gente precisa conversar sério.
– Pode ser de manhã?
– Não!
– Temos que discutir a nossa relação. Você hoje me chamou de gorda. Não quis me levar para festa. Tem vergonha de mim. Me despachou para casa da minha mãe como se eu fosse um objeto só para ficar com aquelas vagabundas. Você acha que está certo? Por que não me contou que tem outra? Pode falar a verdade, prefiro ouvir da sua boca.

Mas lembrem-se: esta obra é um trabalho de pura ficção. Qualquer semelhança com o dia-a-dia é mera coincidência.

sábado, 19 de julho de 2008

Nem só de bunda vive o homem...

por Charles Nascimento

O redator-que-vos-fala é o único representante do sexo masculino a colaborar com esse blog. Por ser minoria, tem que tomar certas precauções ao abordar questões de gênero nesse espaço. Mesmo correndo o risco da execração pública, porém, tomou coragem para escrever sobre um tema bastante em voga em tempos modernos: a importância da bunda no cotidiano brasileiro.

Este texto traz uma opinião que talvez desperte a ira das duas colegas e também idealizadoras do blog - Ana Maria Chagas e Ieda Oliveira. Mas o redator-que-vos-fala resolveu publicá-lo no intuito de ajudar a derrubar um velho mito: a bunda da mulher brasileira não é mais bonita (ou melhor) do que as similares internacionais. É simplesmente mais exibida. Está mais à mostra do público.

O redator-que-vos-fala se deu o trabalho de folhear algumas publicações nacionais (jornais e revistas) e assistiu a programas populares de TV. Embora sem base científica, a breve pesquisa revelou um espaço considerável reservado a matérias direta ou indiretamente ligadas ao tema: Mulher Moranguinho, Mulher Jaca, Mulher Melão, Mulher Melancia, a ex-BBB e por aí vai.... Com auxílio da internet, comparou rapidamente com a cobertura feita por publicações similares de outros países - tablóides sensacionalistas da Inglaterra e dos Estados Unidos, por exemplo.

(Antes de prosseguir com essa explanação, o redator-que-vos-fala abre um parêntese para esclarecer que nada tem contra essa verdadeira salada de fruta de glúteos – ele até gosta. Não é boiola, antes que digam! Mas, a verdade o tributo nacional às nádegas não tem precedentes na história mundial.)

Durante o almoço, na última sexta-feira, Ana Maria divulgou uma informação interessante: uma das principais ruas do Centro do Rio de Janeiro literalmente parou porque uma dessas celebridades instantâneas da vez estava ... acreditem!Fazendo o cabelo em um salão da região. Marmanjos, feito feras no cio, fotografavam e procuraram uma pequena fresta na porta para ver detalhes do corpo escultural – devidamente siliconado, evidente! Mas como não existe no mundo nada tão ruim que não possa piorar, o redator-que-vos-fala deparou com a notícia em dois dos mais respeitados matutinos cariocas.

O saudoso Sargentelli (1924 a 2002) foi um dos primeiros a levar para os veículos de comunicação os ‘atributos físicos’ da mulher brasileira. E abordava a questão da sensualidade com extrema sutileza, se comparado com as estratégias de apelo sexual hoje em prática. Radialista e apresentador de televisão, no período da ditadura militar foi proibido pela censura de apresentar seus polêmicos programas de entrevistas (O preto no branco e Advogado do Diabo). A partir daí mergulhou de cabeça universo do samba, em 1969, época em que abriu sua primeira casa de espetáculos.

O redator-que-vos-fala lembra de uma das últimas entrevistas do "mulatólogo", como ele próprio se autodefinia. Na ocasião, Sargentelli já demonstrava certa dose de cansaço com relação ao festival de bobagem que assolam o país.

Sobre um antigo desejo de resgatar a história da música brasileira, ele respondeu ao entrevistador passou por um árduo trabalho para captar patrocínio. Depois, levou a proposta a um grande jornal. Superada outra via-crúcis, teve que modelar a questão logística (distribuição, modelagem dos fascículos etc). Por fim, chegou o momento de discutir o projeto editorial propriamente dito.

Sargentelli agendou reunião com toda a staff da redação e explicou detalhe por detalhe, exaustivamente. Manifestou ainda o interesse de começar a série de reportagem pela obra de Noel Rosa, no que a jovem e simpática jornalista incumbida da reportagem respondeu de bate pronto: “Ótima idéia, onde é que ele mora?”

O desfecho?
Ele decidiu jogar uma pá de cal sobre a idéia.
Agora, se estiver assistindo a esse festival de bundas e peitos siliconados, deve estar se contorcendo no túmulo. Sua ousadia era fichinha.